quarta-feira, 11 de maio de 2011

Querido,

(crônica nova)
Por Luciana Pinsky


É um prazer tão grande vê-lo que até esqueço a quantidade de sofrimento despejada na minha vida com sua furocólica aparição. Dei até para inventar palavras, pois as que existiam não eram suficientes para você. Sempre megalomaníaco, até quando não queria. Encontro casual com a pessoa menos casual do planeta. É um prazer quase físico olhar nos seus olhos. É uma alegria leve, que de nada lembra as noites solitárias regadas a Orwell e licor de pera. É, aquele licor mesmo que você recusava, pois era de uma doçura enojante. Enojante era sua falta de açúcar.

É um prazer mesmo, ironia nenhuma. Nunca fui irônica, nem quando tentava. Gostava um absurdo de tê-lo por perto. Você me perguntava o motivo e eu não sabia. Como saber? Sei que você se foi e ficou o licor de pera desprezado, mais livros do Orwell – recomendo o da filha do reverendo, se você não leu, tem tudo a ver com as noites gélidas de Curitiba – e nada dos meus antigos colegas. Você, seu vocabulário interminável, eu, minhas dúvidas sem fim. Era errado. Simplesmente errado.

Era? Talvez. Todos sabiam. Todos. Você, logo de cara. Mas, inebriado por meu “exotismo” (exótica? eu sou a pessoa mais normal que conheço...) teve de me beijar. Já eu nem queria saber de “errado”, coisa mais antiga. Agora sei. Fiquei marcada. Perdi companheiros, horrorizados com os meus atos, minha entrega. Tive até de deixar a cidade, vim aqui para cima no calorão. Também eu larguei o licor de pera para nunca mais. Raiva? Ressentimento? Rancor? Nada disso. Hoje, estranho, só lembro do prazer de estar ao seu lado. Da graça. Da intimidade tão absurda para duas pessoas que mal se conheceram. Torno-me tolerante, surpresa até para mim. Deve ser a Maria, que já me transforma mesmo antes de chegar.

É tão, tão bom falar com você. É como se tivéssemos nos visto ontem. O mesmo homem nobre. Mantém a elegância fidalga que me intrigou. Agora sei que foi por causa dela que você me ganhou. Justo eu. Uma mulher revolucionária até nos fios de cabelos descoloridos. Do povo, para o povo. Quem diria que seus múltiplos cabelos brancos iriam me distanciar do meu lema. Até a Corte frequentei. Luta de classes? Que nada: eu queria as classes bem juntinhas.

E aí a desgraça anunciou-se, como você anunciara. Você sempre disse que seríamos vulcânicos. Chocantes. Pecadores. Inviáveis. Os opositores, do meu lado e do seu, repetiam como mantra:

- Povo e Aristocracia unidos?

- Como ela pode se vender assim?

- Como ele pode decair tanto?


- Como o amor pôde ser tão volátil? – pergunto eu, que desde então alcancei a felicidade sóbria.

A resposta deve estar em mim, como os céticos e estranhamente invejosos espectadores cochicham (inveja do que, afinal, da sua calculada distância? da minha capacidade de continuar feliz ao vê-lo?). Não replico. Não reclamo. Prazerosamente, constato.

Foi, como sempre, um prazer, meu querido. Que esta o alcance bem. Espero que tenha feito boa viagem.

Beijos,

Eu.

(Encontros I)

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Meia história


 
(crônica nova)

Por Luciana Pinsky

Nossa história poderia ter sido uma sucessão de sonhos ou ataques incessantes de predadores. Não foi boa ou ruim porque nem história foi. Foi meia história, quase um filme francês. Não, não, péssima comparação. Filme francês dura tempo demais e nada acontece. Por isso não tem fim. Nossa história durou tempo de menos e tanto aconteceu... por isso teve um meio fim. Ou um fim completo mesmo com direto a renascimento no melhor estilo Caetano Veloso para quem gosta dele (“E quem há de negar que esta lhe é superior”)

Meia história porque começou com tudo, continuou no tranco e acabou por WO. E WO, convenhamos, não tem a força dramática de um violão na cabeça, de discos riscados, de gritos noturnos, de terceiros no caminho, de mudança de cidade ou, muito mais grave, de querer-me atleta.

Você, imagino, tem histórias completas com ciclos bem vividos e ressentimentos guardados. Você só me falou de relance, como de relance me olhou, mas foi suficiente. Eu sempre completei as lacunas, tantas, de tantas formas que hoje já não sei se fazem parte da nossa meia história ou apenas do meu quarto de história.

Mas acho que já me estendi demais. Nossa meia história não é romance, conto ou mesmo crônica. Está mais para haicai, mas haicai eu não sei escrever.
Pensando bem, se nossa história em vez de meia fosse inteira, ela não seria tão prolífera. Completo nossa meia história com história inteiras tão reais que nelas habito ao menos no tempo da escrita. Acompanha-me?

(Encontros II)

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Reportagem

De bicicleta na Provence. Reportagem escrita o ano passado para o UOL Viagens. Acaba de ir ao ar. O link é: http://viagem.uol.com.br/ultnot/2010/11/03/pedalando-quatro-dias-pela-regiao-da-provenca-na-franca.jhtm

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Jet lag


(crônica nova)

Por Luciana Pinsky


Camisa vinho de manga curta. Estampada por folhas de plantas médias para grandes cor de gelo. Três botões de cima para baixo desabotoados. Tez vermelha, pelos pretos escapando do tecido. O cabelo, não abundante mas quase comprido, recentemente pintando de preto. Apresento meu companheiro de viagem de horas, horas e ainda mais horas em um voo sem fim ao outro lado do mundo.

E minha cabeça começa a rodar de raiva porque era você que deveria estar ao meu lado. Você. Com cabelo (vasto, por sinal) naturalmente multicolor. Camisas impecavelmente passadas (como manter assim depois de horas amassadas na mala ainda é um mistério para mim, que sempre recorro ao miniferro de passar que carrego), certamente mangas compridas e um hálito convidativo. Pena que a língua nunca tenha completado o convite.

A culpada é ela. Ela. Elinha. Elíssima. Tudo caminhava bem, você usava sua fina ironia comigo. Eu pressentia que sua timidez iria, finalmente, deixar-nos. Debaixo daquela banca de sério certamente um animal sem controle me procuraria, me derrubaria, me arrebataria. Levaria-me para uma viagem bem mais longa que essas intermináveis horas ao lado do ser que – agora – decidira roncar.

Mas ela. Assim no mais, ela. Eu que sabia de todos seus passos só senti o perigo tarde demais. Vi os olhares, mas olhar pode ficar no olhar. Deixei passar. Erro. Você era outro. Emagreceu. Um bom humor irritante. Sorriso, risos até. Você nunca foi de gargalhada. Falava pouco, contava nada, vago. Fugia. E o olhar mudou também. Às vezes mirava qualquer coisa e permanecia assim por longos minutos até ser interrompido.

Mas ela? Por que ela? Ela não tem nada a ver com você. Não entende nada de moda (você gosta de luxo, não consigo imaginá-lo subindo no metrô de tênis) ,vive correndo por aí (você é 100% sedentário), um pouco folgada (você sempre odiou gente intrometida), aventureira (vai me dizer que você vai segui-la em lombo de camelo?), “liberal” (aposto que apronta) e nem loira é. Eu também não, mas posso ser se você quiser.

Ufa! Finalmente o avião pousando. Meu vizinho, ainda meio chapado de sono, limpa a baba da noite bem dormida na minha blusa. Mas não faz mal. Você estará me esperando no aeroporto. Sem ela.

(Encontros III)

terça-feira, 6 de abril de 2010

Epifania no domingo de Páscoa




(crônica nova)

Por Luciana Pinsky



O avião ao longe me distrai do livro sobre livro, da história da História da história, no qual avanço ora sôfrega, ora trôpega. Quero-me no outro quarto onde sua respiração me convida. Imagino suas mãos no teclado, um tanto quanto pesadas. A batida que desespera os técnicos eletrônicos é um dos seus maiores encantos. A música que só você ouve, uma linguagem na tela que só você entende. Você me escancara meus tantos analfabetismos contra tão poucos letramentos.

Agora o cachorro late por seu jantar e eu troco o livro egocêntrico por outro que me leva mais uma vez à Grécia. O berço de tudo que já inventaram e vão inventar... salvo, talvez, o pós-moderno e o Carnaval. Sei não. Daqui a pouco alguém vai dizer que Aristóteles era mestre-sala. E de tanto viajar para aquela península, o grego de 25 séculos atrás me parece mais familiar que esses estranhos códigos que você espreme do sofrido teclado. Que força!

Exaustos, nos encontramos na sala. E subitamente, a epifania: viro expert em HTML e você fluente em grego antigo.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Aniversário

Hoje faz exatamente um ano que Sujeito oculto e demais graças do amor foi lançado. Agradeço a todos que leram, comentaram, ajudaram na divulgação, contaram para os amigos.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Yom Kippur


(crônica nova)

Por Luciana Pinsky

Nesta hora, outros fossem os tempos, eu procuraria você. Contaria das aflições que me perseguem. O medo do passo, dos passos que darei. Da atração ao precipício, que me instiga. Eu, aventureira nata. Você me entenderia, você que me circulou a vida toda saberia entender mais esse medo, entre tantos que já tive. Exceto que você foi meu precipício, que segui, que pulei, que retratei. Exceto que você ficou na margem, olhando o meu salto, apreciando minha coragem e dizendo: “fique bem”.

Costelas, ossos, nervos em frangalhos. Os profissionais disseram: “você vai ficar bem”. Eu não tinha tanta certeza, mas, de fato, fiquei. Com proibições aqui e ali, com certos traumas antes inexistentes, é certo, mas bem. Bastante bem. E ao pular no precipício – e ver que você me via, mas não vinha – eu sabia que jamais, nunca mais, poderia contar. Jamais teria o seu olhar atento, sua visão diferente, seu conselho amigo. Pois amigo você jamais foi.

Pensando bem, é mais do que justo. Se você só pôde contar suas aflições por um mínimo período, por que eu poderia enchê-lo de dúvidas pela vida afora? Se você me teve em soneto, por que eu poderia tê-lo em epopeia? É justo, mas nesta hora do passo, da aflição, do caminho, dá uma saudade danada do você que eu criei para mim. Porém, do você de (muita) carne e (pouco) osso só desejo que fique bem. Longe.